Lípides Prevenção

Qual terá sido o impacto da urbanização na saúde cardiometabólica de povos indígenas brasileiros

Escrito por Elaine Coutinho

Esta publicação também está disponível em: Português

Estima-se que 8 milhões de indígenas, sendo mais de 1000 etnias, vivem atualmente no Brasil. Uma população altamente miscigenada, que sofreu impactos das doenças bacterianas e virais introduzidas pelos europeus, até a imigração africana forçada (dos séculos XV e  XIX), fatos que contribuíram para a extinção das comunidades costeiras até o final do XVIII e delimitou o território indígena predominantemente para a região amazônica. Nesse sentido, qual seria entã0 o impacto da urbanização na saúde cardiovascular de povos indígenas?

Tradicionalmente, os sistemas nutricionais indígenas estão associados a taxas notavelmente mais baixas de doenças metabólicas do que sistemas nutricionais não indígenas, proporcionando raras situações de comorbidades e obesidade (Confira também: https://d3gjbiomfzjjxw.cloudfront.net/dez-coisas-a-saber-nutricao-e-prevencao-de-doencas-cardiovasculares/). Por exemplo, o povo Yanomami, que vive na floresta amazônica, mantém um estilo de vida horticultor seminômade (que inclui caça, coleta e cultivo). Estudo prévio em indivíduos desta população da década de 80 demonstrou ausência de fatores de risco cardiovascular, como níveis de pressão arterial média de 114/72 mmHg; colesterol total 119.8 mg/dl, LDLc 67,6 mg/dl; HDL 34,8 mg/dl; e triglicerídeos 53 mg/dl, alimentos quase sem sal (urina de 24 horas com sódio abaixo do limite inferior de detecção de 0,9 mmol), abstinência de álcool ou alimentos processados e atividade física regular diária.  Além de baixa exposição a fatores de risco cardiovascular, esses indivíduos ainda abrigam um microbioma com a maior diversidade de bactérias e funções já relatadas em uma população humana.

Entretanto, atualmente, várias comunidades indígenas brasileiras têm enfrentado um aumento na taxa de doenças cardiovasculares após uma rápida transição nutricional para dietas e estilo de vida urbanizado. Assim, esta revisão sistemática e meta-análise publicada recentemente no Lancet propôs-se a avaliar o impacto da urbanização na saúde cardiovascular e parâmetros metabólicos de povos indígenas.

Em 46 estudos publicados entre 1961 e 2021 (com total de 20.574 adultos indígenas de pelo menos 33 etnias), observaram-se os seguintes dados:

– Em povos indígenas que vivem nas regiões urbanas do Brasil: taxas mais altas de obesidade (região centro-oeste: 23% [95% CI 17–29]; e região sul 23% [13–34]) e hipertensão (região sul: 30% [10–50]), enquanto as taxas mais baixas de obesidade (11% [IC 95% 8–15]) e hipertensão (1% [1–2]) nas regiões menos urbanizadas (norte) do Brasil.

– A prevalência de obesidade foi 3,5 vezes maior em em territórios indígenas urbanizados (28%) do que naqueles que vivem em terras com mais de 80% de floresta tropical nativa (8%). A frequência geral de obesidade entre indígenas brasileiros (18%) ficou acima da média nacional (aproximadamente 13%) em pares não indígenas quando correspondidos pela idade.

– Houve aumento de aproximadamente 10 mmHg para a pressão arterial sistólica e 7 mm Hg para a diastólica em comparação com os povos indígenas que de áreas menos urbanizadas.  De modo interessante, não houve incremento na pressão arterial com o envelhecimento em indígenas que viviam de acordo com suas tradições hábitos, com redução significativa da pressão arterial níveis entre os homens (PAS: de 109,8 mm Hg a 104,4 mm Hg; PAD: 69,8 mmHg a 66,1 mmHg)

– Entre 1997 e 2019, a taxa de mortalidade cardiovascular em indivíduos residentes na região sudeste (a mais urbanizada) foi 2,5 vezes maior do que a observado na região norte. Por outro lado, o aumento incremental na mortalidade cardiovascular nas últimas duas décadas entre os indígenas brasileiros que vivem no norte ou nordeste (aumento de 2,7 vezes) está em contraste com as taxas estáveis daqueles que vivem em regiões já urbanizadas.

Impressão: As mudanças macrossociais dos modos de vida tradicionais dos povos indígenas decorrentes da urbanização estão associadas a uma piora do perfil cardiometabólico. Esses dados destacam a urgência de políticas ambientais para garantir a conservação do ecossistema natural dentro dos territórios indígenas, bem como o desenvolvimento de políticas sanitárias com cuidado específico sobre a saúde cardiovascular dos povos indígenas brasileiros vivendo em áreas urbanas.

Fonte: Kramer CK, Leitão CB, Viana LV. The impact of urbanisation on the cardiometabolic health of Indigenous Brazilian peoples: a systematic review and meta-analysis, and data from the Brazilian Health registry. Lancet. 2022 Dec 10;400(10368):2074-2083. doi: 10.1016/S0140-6736(22)00625-0. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0140673622006250?via%3Dihub

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