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A inteligência artificial vai deixar os médicos mais “burros”?

Escrito por Eduardo Lapa

Esta publicação também está disponível em: Português

Desde que o chatGPT 3.5 foi lançado no final de 2022, o tema inteligência artificial (AI) entrou na lista dos assuntos quentes que todos comentam. A AI vai mudar a forma como praticamos a medicina. Muito. Alguns exemplos de como a AI vai estar presente na nossa prática:
⁃ ajudará a laudar exames complementares como ecgs, radiografias, tomografias, etc.
⁃ O prontuário eletrônico vai nos lembrar de prescrever uma medicação importante caso esqueçamos (ex: Dr, este paciente com FE de 35% e dispneia deveria estar usando espironolactona ou eplerenone. Tem certeza de que não quer prescrever esta medicação nesta consulta?)
⁃ você pode programar a AI para mandar mensagens para os seus pacientes para lembrá-los de tomar a medicação x ou fazer o exercício y.

Mas já vi alguns médicos falando que a AI poderia deixar os médicos mais “burros”. Que eles ficariam muito dependentes da tecnologia e parariam de raciocinar por eles mesmos. Isto pode acontecer?

Vamos analisar o que ocorreu com outras tecnologias. Em 1900, um cardiologista que atendesse a um paciente com falta de ar na emergência tinha basicamente a seu dispor o estetoscópio. Nada de ECG, radiografia de tórax, oxímetro…
Naquela época, provavelmente um médico mediano gastava bem mais tempo realizando a história clínica e o exame físico de um paciente já que, basicamente, era o que ele tinha para tomar a conduta. Em 2024, o médico mediano tem que dar atenção a isto mas também pensar em todos os exames complementares que tem a seu dispor. Quais podem ajudar no caso. Como interpretá-los. Decidir que conduta entre vários medicamentos e intervenções deve ser escolhida.

É possível que o médico mediano de hoje saiba menos sobre exame físico do que o médico do passado? Sim. Certamente. Mas você preferiria que um familiar seu fosse atendido por um médico mediano de 1900 com a tecnologia disponível na época ou por um médico mediano de 2024 com a tecnologia disponível hoje em dia?

E por que estou falando tanto em mediano? Porque sempre teremos pessoas abaixo da média que, sim, podem se “escorar” na tecnologia para fazer medicina de qualquer jeito. Aquele médico que trata um paciente na sala de emergência como portador de infarto porque o laudo eletrônico do ECG disse que havia alterações sugestivas disto, mas que não tem o conhecimento para ver que se tratava apenas de uma alteração crônica devido à hipertensão arterial.

Neste caso, a tecnologia terminou atrapalhando. Mas a culpa não foi dos exames, mas sim da pessoa responsável por interpretá-los. Sempre existirão médicos e médicos. E tecnologia nenhuma no mundo conseguirá consertar totalmente a falta de cuidado de um médico para com seu paciente.

Voltando aos exemplos citados no começo do texto:
⁃ já temos estudos mostrando, por exemplo, que a AI ajuda a reduzir o tempo que leva para um paciente com infarto ser mandado para o cateterismo cardíaco. Lembrando que a cada minuto de atraso nesta conduta, o paciente perde, em média, 11 dias de vida.
⁃ Também temos estudo mostrando que a taxa de prescrição de medicamentos que reduzem o risco de morte na insuficiência cardíaca mais do que dobrou com avisos do prontuário eletrônico.

A AI vai mudar fortemente a forma que fazemos medicina. Ela pode nos ajudar a sermos mais precisos e eficazes. Mas, para isso, será necessário que os médicos a usem de forma adequada. Por isso cada vez mais os médicos terão que saber cada vez mais sobre o tema.

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Sobre o autor

Eduardo Lapa

Editor-chefe do site Cardiopapers
Especialista em Cardiologia e Ecocardiografia pela SBC

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