Medicina Baseada em Evidências

O acaso e suas armadilhas

Escrito por Remo Holanda

Esta publicação também está disponível em: Português

Como o acaso e e suas armadilhas aparecem no nosso dia-a-dia? Vamos fazer um exercício. Suponha que você esteja disposto a jogar na Mega-sena e se depare com a possibilidade de escolher uma destas três dezenas (combinações). Qual delas você não escolheria?

 

A) 14 22 38 55 87 89

B) 9 11 35 56 71 94

C) 22 23 24 25 26 27

Muito provavelmente (e você não está sozinho) você tenha respondido a letra “C”. Mas agora vamos mudar um pouco a pergunta: Em qual destes números a sua chance de ganhar a Mega-Sena é menor?

A resposta: a chance de ganhar é a mesma independente da combinação! Assumindo que a dezena sorteada (que vai colocar uns milhões a mais na sua conta!) seja inteiramente gerada por números aleatórios, não existe motivo, matematicamente falando, para se julgar que a sequência “C” seja a menos favorecida. Mas por que o nosso cérebro tende a não reconhecer isso? Simples. A nossa mente foi adaptada ao longo da evolução para reconhecer padrões em tudo (ex: bebê chorando = fome; barulho na mata = perigo; trovão = chuva, e assim por diante). Desse modo, a aleatoriedade é algo que facilmente passa batido à nossa percepção. Por isso, se uma sequência como a “C” segue um determinado padrão “lógico”, nós intuitivamente não aceitamos o fato de que ela pode ter sido gerada pura e simplesmente pelo sorteio.

Tomemos outro exemplo famoso do dia a dia. Você e um amigo estão conversando e falando sobre um outro amigo de vocês, quando de repente, exatamente naquele momento, ele adentra o recinto (vamos excluir a situação em que isso tenha sido feito de maneira deliberada, enquanto ele estava ouvindo por detrás da porta ou espiando em alguma câmera escondida pronto para pregar esta peça em vocês…). Qual pensamento vem em mente? O de que nossas mentes estão conectadas? Houve uma “adivinhação” ou mesmo uma conexão telepática para justificar isso? Bom, embora não se possa excluir um poder de conexão mental à distância (aguardamos a ciência desvendar isso de maneira completa), uma boa explicação para o fenômeno pode ter sido simplesmente mais uma peça pregada pelo acaso e suas armadilhas. A fim de determinar a chance matemática de esta adivinhação ter ocorrido ou não, estão faltando três elementos: quantas vezes vocês falaram sobre aquela pessoa e ela não apareceu / quantas vezes não estavam falando e ela apareceu / e quantas vezes estavam jogando conversa fora sobre outro assunto e ela não deu o ar da graça (tem até um teste matemático para calcular isso, chamado de o teste do Qui quadrado).

Tudo bem, mas o que isso tem a ver com Medicina? Resposta: tudo! Quando nos deparamos com o achado de um artigo científico, mostrando por exemplo que um novo medicamento para IAM reduz mortalidade, temos de tomar o imenso cuidado de entender como o acaso pode (ou não) ter influenciado aquele resultado. Mais ainda, temos de ter em mente que o acaso, ainda que possa ser contornado por ferramentas matemáticas em uma pesquisa, jamais pode ser completamente eliminado. Dessa maneira, ao se deparar com algo estranho, fora do normal ou inconsistente com o conhecimento prévio, sempre devemos ficar “com o pé atrás” e saber se o fenômeno observado não passa de uma mera coincidência. Além de simplesmente olhar o famigerado “valor de P” (Quer saber mais sobre ele? Checa essa nossa postagem: https://d3gjbiomfzjjxw.cloudfront.net/o-real-significado-do-valor-de-p/ ), é importante também entender como o estudo foi desenhado, como os dados foram coletados, e se os métodos estatísticos são adequados. Por último, o ceticismo sempre deve andar ao nosso lado como um conselheiro, evitando que nossa mente (lembre-se que ela já é programada de fábrica para errar nesse aspecto!)  seja enganada pelo acaso e suas armadilhas.  Afinal de contas, um raio pode sim cair mais de uma vez no mesmo lugar (pelo menos matematicamente falando…)

 

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