Miocardiopatias

O Mavacanteno vai aposentar a Terapia para Redução de Septo na Miocardiopatia Hipertrófica?

Escrito por Humberto Graner

Esta publicação também está disponível em: Português

Você já deve estar familiarizado com a chegada do mavacanteno para tratamento da miocardiopatia hipertrófica obstrutiva (MCH). Agora, novos dados sobre a  eficácia e segurança da medicação foram publicados, reforçando o seu papel importante e promissor no tratamento da MCH.

O ensaio clínico VALOR-HCM teve como objetivo avaliar a segurança e eficácia do medicamento mavacamteno em pacientes com miocardiopatia hipertrófica obstrutiva que já estavam em tratamento clínico otimizado. No estudo, 108 pacientes foram randomizados para receber mavacamteno ou placebo por 16 semanas. Os participantes tinham uma média de idade de 60 anos e 49% eram mulheres. O critério de inclusão abrangia pacientes com 18 anos ou mais, com MCH documentada e sintomas graves, apesar da terapia médica máxima tolerada.

O desfecho primário, que foi a decisão de prosseguir com a intervenção para reduzir o septo (TRS) – miectomia septal cirúrgica e alcoolização septal percutânea – ou ser elegível para isso em 16 semanas, ocorreu em apenas 17,9% dos pacientes no grupo mavacamteno contra 76,8% no grupo placebo. Em outras palavras, o mavacamteno reduziu significativamente a necessidade de TRS entre os pacientes.

Além disso, o medicamento mostrou melhorias em vários resultados secundários, como a classe funcional NYHA e o gradiente do trato de saída do ventrículo esquerdo (TSVE) em repouso (-36 mmHg vs. -1,5 mmHg), e após manobra de valsalva (-45,2 mmHg vs. 0,4 mmHg). Essas melhorias foram estatisticamente significativas em comparação com o grupo placebo.

Nenhum paciente apresentou insuficiência cardíaca crônica, síncope ou morte cardíaca súbita com a medicação.

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Após 16 semanas – tempo de acompanhamento original do estudo, os pacientes que receberam placebo passaram para o braço mavacamteno de forma cega (crossover).  Eles foram acompanhados por até 56 semanas para avaliar os benefícios da exposição prolongada ao tratamento. Os resultados confirmaram o benefício do mavacanteno nesses pacientes

  • Desfecho primário quando se utilizou mavacamteno por  56 semanas vs. mavacamtem 40 semanas: 8,9% vs. 19,2%;
  • Necessidade de tratamento para redução do septo com base nos critérios das diretrizes: 1,8% vs. 7,7%;
  • Melhoria de pelo menos 1 classe na escala NYHA: 93% vs. 73%.

A eficácia foi semelhante em homens e mulheres.

Em termos de segurança, não foram relatadas diferenças significativas entre os grupos, exceto por uma incidência mais alta de taquicardia ventricular não sustentada no grupo placebo.

Resumindo

O mavacamteno atua como um inibidor direcionado da miosina cardíaca, reduzindo a contratilidade excessiva que é característica da miocardiopatia hipertrófica. Os resultados deste ensaio complementam os de outros estudos, como o EXPLORER-HCM, que também mostraram a superioridade do mavacamten em relação ao placebo em melhorar os parâmetros morfológicos, a capacidade física, e a qualidade de vida nesses pacientes. Em resumo, o VALOR-HCM mostrou que o mavacamteno tem o potencial de melhorar significativamente os sintomas e reduzir a necessidade de intervenções mais invasivas, como o tratamento para redução do septo, em pacientes com miocardiopatia hipertrófica obstrutiva.

Mas, vejam que mesmo neste caso, o mavacanteno reduziu, mas não eliminou a necessidade de TRS em alguns casos. Este tratamento para reduzir o septo deve ser considerado ainda em casos:

  1. Sintomas graves não aliviados por medicamentos, inclusive o próprio mavacanteno.
  2. Obstrução significativa do TSVE (gradiente ≥ 50 mmHg).
  3. Falha ou intolerância ao tratamento medicamentoso.
  4. Risco elevado de morte súbita cardíaca.
  5. Qualidade de vida muiot comprometida.

A decisão deve ser individualizada e tomada por uma equipe especializada em HCM.

Referência

Desai MY, Owens A, Geske JB, et al. Dose-Blinded Myosin Inhibition in Patients With Obstructive Hypertrophic Cardiomyopathy Referred for Septal Reduction Therapy: Outcomes Through 32 Weeks. Circulation 2023;147:850-63.

Editorial: Rakowski H, Bataiosu R. Can Novel Myosin Inhibitors Defer Septal Reduction Therapy in HCM? At What Risk and at What Cost? Circulation 2023;147:864-6.

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Sobre o autor

Humberto Graner

Co-Editor do site Cardiopapers
Especialista em Cardiologia e Medicina Intensiva
Professor das Faculdades de Medicina da UFG e UniEvangélica (Goiás)
Doutor em Ciências pelo InCor-HCFMUSP
Fellowship em Coronariopatias Agudas pelo InCor-HCFMUSP
Coordenador do Pronto Atendimento do Hospital Israelita Albert Einstein - Unidade Goiânia (GO)
Pesquisador da ARO (Academic Research Organization) - Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo (SP)

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