Arritmia

Screening de FA pelo Smartwatch – Vale à Pena?

Escrito por Pedro Veronese

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Será que vale à pena rastreamento em massa de FA (fibrilação atrial) pelo smartwatch? Vamos começar este post reforçando alguns conceitos importantes:

Valor preditivo positivo (VPP): é a probabilidade de um indivíduo avaliado E com resultado positivo no teste para uma determinada doença, ser realmente doente.  É muito importante ressaltar que a prevalência da doença na população estudada altera o VPP, em outras palavras, quanto maior a prevalência de uma doença na população, maior é o VPP, ou seja, a probabilidade de se encontrar verdadeiros doentes. Lembrar que a sensibilidade e especificidade do teste não dependem da prevalência populacional da doença. (Quer aprender mais detalhes sobre tudo isso e muito mais? Não perca nosso Curso Cardiopapers de Medicina Baseada em Evidência: https://lp2.cardiopapers.com.br/mbe-matriculas-perpetuo-vitrine/)

Vou exemplificar o conceito acima de forma prática: quando um smartwatch detecta FA no seu dono, o VPP se refere ao fato de que aquela detecção realmente indique um indivíduo portador de FA. Ficou claro?

Posto estes conceitos, um recente artigo do Dr. Gregory M. Marcus da Universidade da Califórnia, Circulation. 2022;146:1733–1734. DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.122.062292, sobre detecção de FA pelo smartwatch discute esta questão. Ele começa traçando as seguintes considerações gerais:

O rastreamento populacional de FA mostra-se atrativo, pois, frequentemente é uma doença assintomática, que pode causar eventos tromboembólicos graves com alta morbimortalidade, e uma vez identificada esta arritmia, há tratamento efetivo disponível. Esse racional é absolutamente factível, mas será que ele é verdadeiro? No momento, as evidências científicas são insuficientes para determinar que um screening populacional possa reduzir eventos a um custo razoável e com uma magnitude que supere os danos de resultados falso-positivos. Outro ponto é que com o uso dos smartwatch para detecção de FA, grande parte dos custos médicos para o diagnóstico é transferido do setor de saúde para o indivíduo.

Ele continua destacando: a indústria dos smartwatch modificou a ordem natural dos acontecimentos, que era: a ciência produz um conhecimento, divulga em diretrizes para a comunidade médica, que leva à população por meio dos seus médicos. Com esta nova tecnologia, o paciente compra o relógio, detecta uma possível FA e leva esse fato ao seu médico.

Mas qual o problema disso tudo? Dr. Gregory M. Marcus enfatiza:

Se considerarmos um teste acurado, com 95% de sensibilidade e especificidade, e aplicarmos a uma população com 1% de prevalência de uma determinada doença (prevalência aproximada de FA na população que utiliza smartwatch), o VPP será de 16%. Em outras palavras, apesar da boa acurácia do teste, que estaria acima de muitos testes médicos disponíveis no mercado, 84% dos testes positivos seriam falsos (falsos-positivos) nesta população.

O autor ainda ressalta que, embora muitos smartwatches sejam atualmente equipados para gravar um ECG, a acurácia na detecção de FA usando um alerta inicial de irregularidade do intervalo RR, que posteriormente triga a execução do ECG, não foi rigorosamente estudado.

Ele finaliza dizendo que a detecção de FA pelo smartwatch é uma grande promessa, mas muito trabalho será necessário para integrar essas informações recebidas pelo público e transformá-las em ganho para o indivíduo e para o bem-estar público.

Comentário Cardiopapers:

A anticoagulação, medida mais importante no tratamento da FA, está bem estabelecida nos pacientes com FA clínica, que é aquela detectada em um ECG de repouso de 12 derivações, ou em uma tira de ECG de pelo menos 30 seg. de duração. A anticoagulação de FA subclínica, muitas vezes detectada pelos smartwatch, está sob investigação. Para mais informações sobre esse tema, leia esse outro post que escrevi: click aqui

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Sobre o autor

Pedro Veronese

Médico Especialista em Clínica Médica pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.
Cardiologista, Arritmologista e Eletrofisiologista pelo InCor-HCFMUSP.
Médico Especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia - SBC.
Médico Especialista em Arritmia Clínica e Eletrofisiologia pela Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas - SOBRAC.
Médico do Centro de Arritmias Cardíacas do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Doutor em Cardiologia pelo InCor - HCFMUSP.
Preceptor da Residência de Clínica Médica do Hospital Estadual de Sapopemba e Hospital Estadual Vila Alpina.
Médico Chefe de Plantão do Pronto Socorro Central da Santa Casa de São Paulo.
Professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
Professor da Faculdade de Medicina UNINOVE.

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