Coronariopatia Insuficiência Cardíaca

Angioplastia na miocardiopatia isquêmica

Escrito por Humberto Graner

Esta publicação também está disponível em: Português

Em Barcelona, durante o Congresso da European Society of Cardiology (ESC) 2022, foi apresentado o estudo REVIVED-BCIS2, publicado simultaneamente no periódico New England Journal of Medicine1.   O objetivo do estudo foi avaliar se o tratamento da IC por miocardiopatia isquêmica com angioplastia pode melhorar a sobrevida e reduzir a hospitalização destes pacientes

 

O que dizem as evidências:

  • O estudo STICH – o único estudo randomizado que avaliou cirurgia de revascularização na miocardiopatia isquêmica com FE ≤35% – mostrou uma redução da mortalidade a favor da cirurgia após um seguimento de 10 anos (59% dos pacientes randomizados para CRM morreram versus 66% no grupo TMO; hazard ratio [HR] 0,84; IC 95% 0,73-0,97; P=0,02);2
  • No STICH, a mortalidade nos primeiros 30 dias foi significativamente maior no grupo cirúrgico (HR 3,12; IC 95% 1,33-7,31);
  • Nos primeiros 5 anos, não houve diferença estatisticamente significativa na mortalidade (HR 0,86; IC 95% 0,72-1,04; P = 0,12), embora a ocorrência do desfecho composto de morte ou hospitalização por IC tenha sido menor no grupo cirurgia (HR 0,84; IC 95% 0,71-0,98);
  • Embora numerosas comparações tenham sido feitas entre ICP vs CRM em pacientes com DAC sintomática, a maioria excluiu pacientes com disfunção importante de VE;
  • As diretrizes recomendam CRM para pacientes com DAC multiarterial e FE ≤35%, e a angiplastia na miocardiopatia isquêmica é recomendação IIb apenas para quando a CRM não é factível.

(Quer saber mais sobre o estudo STICH? Confira em //d3gjbiomfzjjxw.cloudfront.net/vale-a-pena-fazer-revascularizacao-cirurgica-em-pacientes-com-miocardiopatia-isquemica-grave/)

 

O REVIVED foi um estudo multicêntrico conduzido no Reino Unido, que incluiu 700 pacientes com IC com FE ≤ 35% e doença arterial coronária multiarterial, com viabilidade em pelo menos 4 segmentos.

 

Os principais critérios de exclusão foram:

  • IAM < 4 semanas antes da randomização
  • TFG < 25 ml/min/1,73m2
  • IC descompensada requerendo inotrópico/DVA/VM/VNI ou DAVE <72 horas antes da randomização
  • Doença valvar que requeira intervenção
  • Contraindicação para angioplastia

Após um estudo de viabilidade (ressonância cardíaca, ecocardiograma de estresse, cintilografia ou PET-CT) que demonstrasse viabilidade em ³4 segmentos, os pacientes eram randomizados para serem submetidos a angioplastia, ou manter tratamento clínico apenas. Este tratamento medicamentoso otimizado (TMO), aliás, era individualizado e a critério médico, de acordo com as diretrizes locais e internacionais. O desfecho primário era morte por todas as causas ou hospitalização por insuficiência cardíaca.

E quais foram os resultados? No estudo REVIVED, após um seguimento mediano de 41 meses, não houve diferença na ocorrência do desfecho primário entre os grupos angioplastia e tratamento clínico otimizado (37,2% versus 38,0% de pacientes com evento, respectivamente; HR 0,99; IC 95% 0,78-1,27; P = 0,96). Também não houve diferença entre os grupos na melhora da fração de ejeção do VE e na qualidade de vida em 2 anos.

 

Conclusão: o estudo REVIVED não encontrou um benefício da angiplastia de rotina na miocardiopatia isquêmica. Portanto, a melhor estratégia de revascularização neste grupo de pacientes ainda é a cirurgia de revascularização do miocárdio.

 

REFERÊNCIAS:

 

 

1- Perera D, Clayton T, O’Kane PD, Greenwood JP, Weerackody R, Ryan M, Morgan HP, Dodd M, Evans R, Canter R, Arnold S, Dixon LJ, Edwards RJ, De Silva K, Spratt JC, Conway D, Cotton J, McEntegart M, Chiribiri A, Saramago P, Gershlick A, Shah AM, Clark AL, Petrie MC; REVIVED-BCIS2 Investigators. Percutaneous Revascularization for Ischemic Left Ventricular Dysfunction. N Engl J Med. 2022 Aug 27. doi: 10.1056/NEJMoa2206606. Epub ahead of print. (https://www.nejm.org/doi/10.1056/NEJMoa2206606?url_ver=Z39.88-2003&rfr_id=ori:rid:crossref.org&rfr_dat=cr_pub%20%200pubmed)

2- Velazquez EJ, Lee KL, Jones RH, Al-Khalidi HR, Hill JA, Panza JA, Michler RE, Bonow RO, Doenst T, Petrie MC, Oh JK, She L, Moore VL, Desvigne-Nickens P, Sopko G, Rouleau JL; STICHES Investigators. Coronary-Artery Bypass Surgery in Patients with Ischemic Cardiomyopathy. N Engl J Med. 2016 374(16):1511-20. (https://www.nejm.org/doi/10.1056/NEJMoa1602001?url_ver=Z39.88-2003&rfr_id=ori:rid:crossref.org&rfr_dat=cr_pub%20%200www.ncbi.nlm.nih.gov)

 

 

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Sobre o autor

Humberto Graner

Co-Editor do site Cardiopapers
Especialista em Cardiologia e Medicina Intensiva
Professor das Faculdades de Medicina da UFG e UniEvangélica (Goiás)
Doutor em Ciências pelo InCor-HCFMUSP
Fellowship em Coronariopatias Agudas pelo InCor-HCFMUSP
Coordenador do Pronto Atendimento do Hospital Israelita Albert Einstein - Unidade Goiânia (GO)
Pesquisador da ARO (Academic Research Organization) - Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo (SP)

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