Atividade Física

A atividade física não programada pode ser benéfica para a saúde ?

Escrito por Silvio Póvoa

Esta publicação também está disponível em: Português

Existe associação de atividade física com redução de mortalidade cardiovascular e por alguns tipos de câncer. Recentemente há um interesse maior em entender a ideia de que talvez “toda atividade física conte” , incluindo todos os domínios da vida , e não necessariamente apenas durante o exercício físico.  Para uma mesma unidade de tempo os efeitos benéficos de uma atividade física são dependentes da intensidade.  Para um mesmo tempo decorrido de atividade física, a maior intensidade se associa com redução de risco. Acredita-se que esse benefício se dê pelas adaptações cardiorrespiratórias mais intensas que a atividade intensa traga. Mas será que existe também benefício com a atividade física não programada?

 Um estudo publicado na revista Nature procurou esclarecer esta dúvida. A atividade física vigorosa de alta intensidade do cotidiano (tradução livre) , trazida pelo artigo pela sigla VILPA (vigorous intermittent lifestyle physical activity) corresponde a atividades físicas de alta intensidade realizadas durante o cotidiano das pessoas . Exemplos seriam uma caminhada acelerada em direção ao trabalho ou subir escadas. O interessante da VILPA é que ela possibilita maior adesão à prática de atividade física. Mesmo assim, até o momento, nenhum estudo havia identificado se esse tipo de atividade física estaria associada com benefício cardiovascular.

 Dessa forma, o estudo trouxe consigo a possibilidade de avaliar , de acordo com dados de acelerômetros dispostos no UK Biobank, curvas dose-resposta de VILPA e mortalidade cardiovascular, oncológica, por todas as causas, e o mínimo de VILPA necessário para benefício em indivíduos que NÃO relatavam a prática de atividade física programada.  Também foram avaliadas as curvas dose-resposta de atividade física intensa (programada) e desfechos de mortalidade.

Quais foram os resultados? 

 Na análise, 92,3%  dos esforços VILPA duraram até 1min, e 97,7% duraram até 2min. A mediana e máxima duração foram de 4 e 16 min, tendo na mediana 3 episódios de VILPA e no máximo 11 episódios por dia. No grupo de pessoas que se exercitavam, a mediana de atividade física intensa era de 6,2min e a máxima 18min por dia, com mediana de 4 episódios por dia e máximo de 18 episódios por dia. Houve uma relação quase linear entre VILPA e mortalidade por todas as causas.  A partir de 1,5 sessão de VILPA com duração de até pelo menos 1  min já houve associação com redução de mortalidade por todas as causas – HR de 0.75 (95% CI 0.66, 0.85). Houve também associação de VILPA com menor mortalidade por câncer.  A dose mínima para benefício se mostrou 3.4 minutos por dia.

Comparando VILPA com exercício físico programado, ambos demonstraram benefício em redução de mortalidade , sendo que no caso do exercício programado de alta intensidade a dose mínima diária para benefício foi de 4.8min enquanto no VILPA foi de 3.4 minutos. Não houve diferença material quanto a mortalidade cardiovascular ou por câncer. Quanto a tempo de duração, a maior redução de risco esteve no fim do continuum VILPA/Exercício Programado, de forma que maiores volumes se associaram com maior benefício.

Este estudo se torna bem interessante uma vez que muitos adultos não se engajam em práticas  regulares de atividades físicas, uma vez  que pontos de atividade física, no cotidiano , com duração de 1-2min, possam ser benéficos pra saúde. Os resultados são surpreendentes do ponto de vista positivo. A mediana de 4.4minutos diários  de VILPA se associou a 26-30% de redução de mortalidade por todas as causas e 32-34% de risco de mortalidade cardiovascular. Interessante que o achado de redução de mortalidade associada à 4.4min de VILPA diários (aproximadamente 31minutos semanais) pode ser comparada a >75-150min de atividade moderada observada em coorte americano (redução de 36-45%).

Dessa forma, em conclusão, o artigo traz que 2-3 sessões curtas de VILPA por dia ou 3-4min por dia de VILPA se associou com redução de mortalidade  tanto por todas as causas, quanto doenças cardiovasculares e oncológicas .

E como isso muda a minha prática médica ?

            Diversas vezes pacientes referem não possuírem tempo para a prática de atividades físicas. Contextos sociais, ocupacionais, temporais e ambientais de fato influenciam nisso. Ao saber de benefícios de atividades físicas não programadas de alta intensidade, podemos ter ganhos de redução de desfechos importantes. Sugestões de preferir escadas, parar o carro um pouco mais longe do trabalho, carregar as sacolas ou até mesmo realizar algumas atividades domésticas podem trazer benefícios enormes para a saúde. Portanto, sugerir sessões curtas, na ausência de tempo, pode ser uma estratégia interessante.

Outro dado pertinente do estudo em questão é talvez uma mudança da forma de coleta de dados quanto à análise da prática de atividades físicas.  O advento de dispositivos como  smartwatches pode substituir os questionários como forma de avaliar a quantidade e intensidade de atividade física praticada por uma população. Com isso, permitiremos, quem sabe, no presente e no futuro, uma observação e conclusões ainda mais finas. No consultório, o cardiologista, hoje, já pode olhar aplicativos de saúde do paciente e analisar número de passos, distâncias percorridas, frequência cardíaca feita no esforço. Isso pode ser interessante na avaliação desses pacientes.

REFERÊNCIA

  1. Stamatakis E, Ahmadi MN, Gill JMR, Thøgersen-Ntoumani C, Gibala MJ, Doherty A, Hamer M. Association of wearable device-measured vigorous intermittent lifestyle physical activity with mortality. Nat Med. 2022 Dec;28(12):2521-2529. doi: 10.1038/s41591-022-02100-x. Epub 2022 Dec 8. PMID: 36482104; PMCID: PMC9800274. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC9800274/

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