Miscelânia

Painel farmacogenético previne reações adversas às medicações

Escrito por Humberto Graner

Esta publicação também está disponível em: Português

A prescrição de medicamentos guiados por uma abordagem farmacogenética pode reduzir a incidência de efeitos adversos relacionados ao tratamento. Este foi o principal achado de um estudo inovador desenhado para avaliar a utilidade de um painel farmacogenético para a prevenção de reações adversas a medicamentos.

Reações adversas aos tratamentos possuem impacto significativo. Na União Europeia, por exemplo, eles causam até 128.000 mortes por ano e até 9% de todas as internações hospitalares, número este que atinge 20% em pessoas com mais de 70 anos.

A farmacogenética consiste em testar variações genéticas de alvos de medicações, proteínas transportadoras e enzimas metabolizadoras. É conhecida por prever parte da variabilidade na eficácia e segurança de diversas drogas. Esta é uma das abordagens da chamada “Medicina de Precisão”, que você pode saber mais aqui. Embora já existam vários testes direcionados gene-medicação, uma testagem prococe por meio de um painel genético amplo é o grande mérito deste estudo.

Os autores conduziram um estudo aberto, multicêntrico, controlado, randomizado por cluster, de implementação de um painel farmacogenético de 12 genes em sete países europeus (Áustria, Grécia, Itália, Holanda, Eslovênia, Espanha e Reino Unido). Os genes avaliados eram CYP2B6, CYP2C9, CYP2C19, CYP2D6, CYP3A5, DPYD, F5, HLA-B, SLCO1B1, TPMT, UGT1A1 e VKORC1. Pacientes com 18 anos ou mais que recebiam uma primeira prescrição de um medicamento clinicamente recomendado nas diretrizes do Dutch Pharmacogenetics Working Group (DPWG) foram elegíveis para inclusão. As recomendações desse grupo se assemelham às outras amplamente aceitas, como o FDA.

Aqueles com uma variante genética ativa foram tratados de acordo com as recomendações do DPWG. Os pacientes do grupo controle receberam tratamento padrão. O desfecho primário foi a ocorrência de reações adversas clinicamente relevantes nas 12 semanas após o teste. Um total de 6.944 pessoas foram incluídas. Uma ressalva relevante é que a aplicação clínica do teste incluiu um programa educacional introdutório e apoio à decisão no momento do atendimento.

A principal descoberta foi: dos 1.558 pacientes com variantes genéticas positivas para a medicação-índice, a incidência de reações adversas clinicamente relevantes foi observada em 152 de 725 (21%) no grupo intervenção, e 231 de 833 (28%) no grupo de controle. Ou seja, a intervenção farmacogenética reduziu significativamente o risco de reações adversas a medicamentos em 30% (OR 0,70; IC 95%, 0,54–0,91).

É importante ressaltar que o estudo não avaliou nenhum possível impacto na eficácia do medicamento, e são necessários mais estudos em um grupo ancestral mais diverso (além dos europeus). Além disso, uma análise de custo-efetividade será publicada em um relatório separado.  Mas os autores acreditam no impacto a longo prazo desta abordagem, pois a genotipagem em si só precisa ser feita uma vez em cada paciente, mas pode refletir em benefícios por toda a vida na melhor tomada de decisão clínica.

A principal mensagem é que a avaliação precoce (antes da prescrição) utilizando um painel farmacogenético é factível e diminuiu as reações adversas a medicamentos.

 

Referência:

Swen et al. A 12-gene pharmacogenetic panel to prevent adverse drug reactions: an open-label, multicentre, controlled, cluster-randomised crossover implementation study. Lancet 2023 Feb 04;401(10374)347-356.

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Sobre o autor

Humberto Graner

Co-Editor do site Cardiopapers
Especialista em Cardiologia e Medicina Intensiva
Professor das Faculdades de Medicina da UFG e UniEvangélica (Goiás)
Doutor em Ciências pelo InCor-HCFMUSP
Fellowship em Coronariopatias Agudas pelo InCor-HCFMUSP
Coordenador do Pronto Atendimento do Hospital Israelita Albert Einstein - Unidade Goiânia (GO)
Pesquisador da ARO (Academic Research Organization) - Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo (SP)

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