Prevenção Temas diversos

Você já ouviu falar sobre Fumar Restrito?

Escrito por Lucas Aguiar

Esta publicação também está disponível em: Português

É conhecido que o tabagismo é um fator de risco evitável importante para doenças cardiovasculares. A incidência de infarto, por exemplo, é  seis vezes maior em mulheres e três vezes maior em homens que fumam pelo menos 20 cigarros ao dia; quando comparados a indivíduos que não fumam.

Um estudo brasileiro publicado em 2021 sugeriu uma nova técnica comportamental para auxiliar na cessação do tabagismo. O método comportamental foi chamado ‘Cue Restricted Smoking’ (CRS), em outras palavras, “fumar restrito”.

A estratégia consistia em o paciente tabagista quando fumasse, apenas o faria em pé, sozinho, olhando para a parede, sem qualquer outro estímulo, que não o cigarro.

Essa ideia surgiu da observação de que, a despeito do uso da vareniclina, alguns tabagistas associavam o tabaco com outra atividade prazerosa. A Vareniclina, ao atuar como agonista do receptor de nicotina, liga-se firmemente a ele, impedindo a nicotina propriamente de se ligar nesse receptor – reduzindo portanto o efeito recompensador que o tabaco proporciona. Mesmo assim, as melhores taxas de sucesso com o uso de vareniclina não alcançavam 45%.

Qual foi a nova proposta?

O estudo selecionou tabagistas que fumavam pelo menos 5 cigarros ao dia, aos quais seriam oferecidos tratamento medicamentoso combinado com suporte motivacional. O tratamento medicamentoso consistia em vareniclina, com ou sem bupropiona e terapia de reposição nicotínica. E o suporte poderia ser CRS ou a estratégia convencional.

No primeiro grupo, 324 fumantes foram orientados com a estratégia convencional, que consiste em  marcar uma data, entre o oitavo e decimo quarto dia após o início da vareniclina, para cessar o uso. Além disso, também eram instruídos a evitar triggers, como uso de álcool ou tomar café.

No outro grupo, foram 281 pacientes tabagistas também com o mesmo tratamento medicamentoso, mas com a nova técnica descrita. Esta consistia em, após o oitavo dia de uso de vareniclina, os pacientes poderiam continuar a fumar, desde que o fizesse sozinho, em pé, olhando para uma parede. Ademais, ingerir álcool e tomar café eram permitidos; mas caso desejassem fumar, teria que ser com a restrição descrita.

Os pacientes eram seguidos, inclusive com reforço comportamental da técnica orientada e dosagem de monóxido de carbônio em ar expirado, com 2, 4 , 6, 8 e 12 semanas. Em seguida, por telefone, com 52 semanas. O desfecho primário foi abstinência durante período de 4 semanas, contando do início da semana 9 até o fim da semana 12, do tratamento com vareniclina realizado. O desfecho secundário foi a manutenção de abstinência na semana 52.

Os resultados chamam atenção pois se observou desfecho primário em 77% dos pacientes submetidos a técnica de fumar restrito, em comparação com 54% dos pacientes que utilizaram técnica tradicional (HR 1,42; IC95%: 1,26 – 1,60; com p < 0,001). Ou seja, a nova técnica traria 42% mais chance de sucesso, em relação a tradicional. Essa diferença se mantém quando analisamos a semana 52, com uma taxa de sucesso de 63% no grupo da técnica CRS, em comparação com a estratégia convencional 43% (HR 1,46; IC95% 1,25 – 1,70; com p < 0,001).

Uma orientação simples, mas que mostrou importante diferença no auxílio a cessação do tabagismo, em auxílio a vareniclina. Ao retirar qualquer outro estímulo externo associado ao ato de fumar, muitas vezes construído pelo fumante como um ritual de regozijo, a nova orientação possibilitou a percepção do paciente da falta de prazer que o tabaco proporciona. Além disso, através desse método, o componente de ansiedade do paciente em ter um determinado dia ‘X’ para cessar o tabagismo, bem como sua frustração em talvez não ter conseguido naquela data em específico, são diminuídos; outra hipótese que possa justificar a aparente superioridade do método CRS em relação ao tradicional.

O estudo apresenta algumas limitações, por ter sido retrospectivo por exemplo, necessitando de estudos clínicos randomizados para comprovação. Mas ao mesmo, é interessante termos conhecimento de uma nova estratégia que pode nos auxiliar em ajudar o paciente a parar de fumar.

Referências

Anthenelli RM, Benowitz NL, West R, et al. Neuropsychiatric safety and efficacy of varenicline, bupropion, and nicotine patch in smokers with and without psychiatric disorders (EAGLES): a double-blind, randomised, placebo-controlled clinical trial. Lancet. 2016 Jun 18;387(10037):2507-20. doi: 10.1016/S0140-6736(16)30272-0. http://dx.doi.org/10.1016/s0140-6736(16)30272-0.

Scholz JR, Abe TO, Gaya PV, Bellini B, de Moraes IRA, Santos JR, Tomaz PRX, de Lima Santos PC Jr, Tonstad S. Cue restricted smoking increases quit rates with varenicline. Tob Prev Cessat. 2021 May 12;7:33. doi: 10.18332/tpc/133570. 

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